TATUÍ (SP), TERRA DA MÚSICA E DE VIOLEIROS
Compadre Luiz Viola,
Que em paz esteja, desejo muita viola, saúde e paz!
Há algum tempo não lhe escrevo, sinto saudade de prosear com o amigo. Faço-o agora por ter uma boa novidade para contar, e que creio que o amigo vai gostar também...
Em Tatuí - SP, no último dia 12/02/2008, estávamos eu e nosso amigo comum Luciano Queiroz, o luthier e violeiro, aproveitando algumas das maravilhosas apresentações do 1.o Festival de Viola de lá, que aconteceu dentro do 8.o Brasil Instrumental (uma maravilha, por sinal: umas duas semanas com um time fabuloso de grandes instrumentistas, shows, oficinas. A cidade toda está de parabéns - aliás, Tatuí já se tornou sinônimo de música boa.
O show que estava marcado para as 19 horas, no coreto da praça da matriz - portanto, ao ar livre para o público - era de Ricardo Vignini ("Matuto Moderno") e Zé Helder: dois caras bacanas, talentosos, inovadores, mas que não perdem o foco dos grandes valores da nossa violinha de 10 cordas.
Mas uma tempestade se anunciava, o tempo fechou, ficou feio mesmo. Na abertura, Ricardo já desafiou a chuva, e avisou ao público que, caso chovesse, o "palco" (o coreto) estava à disposição para quem quisesse "chegar mais perto", e curtir o show lá com eles, no único lugar protegido de chuva da praça toda.
E não deu outra: logo após um belo solo lembrando Hendrix (se esse algum dia tocasse viola) e cheio de efeitos especiais de pedaleira de guitarra, um mundão de água veio abaixo, de uma vez só, aquela pancada. As pessoas correram para o coreto, se acomodaram em volta dos artistas, assentados. Não me lembro de ninguém ter ido embora, entretanto.
Ricardo e Zé? Não interroperam nem uma música sequer! E nem o resto do show, simplesmente foram tocando... Enxugavam as mãos, os instrumentos, o rosto... e continuavam.
A chuva? Molhou tudo! Os equipamentos, os instrumentos, os músicos, o coreto todo ficou molhado - as pessoas tiveram que acompanhar o final do show de pé! Mas ninguém arredou dali! O vento, forte, derrubou um suporte da iluminação... mas o show continuou! Uma meia hora depois - sem que houvesse paralização, a chuva deu uma trégua, mas ninguém se moveu. O show? Foi até o horário previsto para acabar. Mais pro final, houve até um pique de energia - e eles, os "malucos" tocaram uma música inteira sem energia, som acústico... mas também, nem precisava, pois estávamos todos ali bem pertinho, antes até do gargarejo, sentindo inclusive a respiração molhada daqueles músicos, hipnotizados todos, eles e nós, num momento de pura ... ARTE!
Sim, compadre: só mesmo a magia da arte pode explicar um momento assim. Ninguém estava preocupado com o patrimônio molhado, com as roupas molhadas, com o desconforto: naquele momento, só havia a lei que une o artista e seu público. Com certeza, foi um dos shows mais marcantes na vida de todas aquelas pessoas. Mais do que o profissionalismo e o respeito às pessoas demonstrado por todos, artistas e público, houve ali uma grande demonstração de amor à arte!
Só lamento que muito mais gente não pôde presenciar esse belo momento, compadre. Muita gente que se enche de preconceito, que pensa que "esse povo" que toca coisas diferentes na viola de 10 cordas não merece respeito deveria estar todo lá, naquele dia mágico, no coreto da praça da matriz de Tatuí! Só pra poder se arrepiar com as cenas.

(antes da chuva apertar, ainda deu pra curtir o show de rock na viola assentado...)
(Os artistas, e seu público: momento de magia e hipnotismo!)
(O suporte de luz, caído; repare que a chuva molhou tudo em volta...)
No mais, obrigado!
E vamos proseando...
João Araújo
Diretor da pesquisa musical Viola Urbana
Belo Horizonte - MG
Escrito por Luiz Viola às 13h10
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