SÚPLICA DA VIOLA
Cheguei aqui quietinha, enfrentei mares, sol quente, tempestades e noites frias, mas aqui entrei desbravando o chão.
Fui instrumento de aprendizado e alegria, folias, cantorias, danças e oração.
Fui aceita e eleita pelos índios dessa nação.
Aos poucos que o tempo foi passando, pessoas saindo e do Brasil entrando, fui jogada num canto e fiquei esquecida.
Fiquei sozinha, triste e desafinada...
Mesmo assim, em alguns lugares eu cantava tristezas e alegrias, era o instrumento de noites e cantorias.
Deitava aos braços de homens humildes.
Doutores do campo, ignorantes da cidade, deuses do mato, mas o jeca desprezado...
Assim eu também era, mas, no fundo de minha alma, dentro da imensidão dos meus inúmeros acordes que contenho.
Tinha a certeza de que tudo era passageiro.
E que um dia eu iria poder gritar, de que eu poderia ser ouvida, de que eu demonstraria toda minha essência.
E não muito tempo depois dessa certeza em mim contida, renasciam violeiros e violeiras que me colocariam em suas vidas;
Uns do sul, outros do norte e nordeste, outros do sul e sudeste.
Consegui aos poucos ser tocada profundamente, por violeiros repentistas, instrumentistas ou caipiras extremamente.
Não me importo e nem tenho preconceito de quem me toca. Se mãos judiadas ou granfinas, que me importa?
A única coisa que me fere o pinho, é saber que ainda sou tida por alguns como “brega”.
Brega, por quê?
Se não divulgo a guerra,
Se não destruí nenhuma nação,
Se não sou usada como tema obsceno,
Se não sou arma, bomba ou objeto de explosão?
Em um mundo tecnológico, em que a arma é usada como água, em que a droga está quase sendo legalizada, em que o sexo é banalizado, em que tudo está errado, você me culpa só porque sou simples e não canto os temas chamados da “era moderna”?
Apenas pra ganhar dinheiro e deixar de lado o que realmente sou?
Não seu moço, sou humilde, mas não sou boba e não me vendo por qualquer dinheiro!
Não que ganhar dinheiro seja errado, mas, cuidado!
O mundo é o espelho que reflete tudo e toda a maldade que nele contém.
Se eu me vender à maldade, à leviandade, um dia serei cobrada por ter cometido tamanha burrada!
Será que você não enxerga que eu represento o homem da luta?
Que represento quem lavoura o chão?
Que eu sou o tema do mato, sou a poeira, a grama, os animais, a natureza, a chuva e o chão?
O que seria da cidade se não fosse o caboclo do sertão?
Quem me dera se todos ouvissem meu clamor pela luta da mão desarmada de um mundo sem dor...
Mas tenho tu, violeiro, que me tocas!
Me ajuda a combater esse desafio!
Quero levar a independência sem a violência pra esse povo do céu azul anil.
Me ajuda a sair do esquecimento, me ajuda a levantar a bandeira do Brasil!
Não quero ser pretensiosa, pois nem Jesus, o Todo Poderoso, agradou e conquistou toda a nação, mas, diz o ditado que só vence o povo que se dá as mãos.
Então, me ajuda a mostrar quem eu sou.
Não tenho nem orgulho e nem vaidade, e, te peço violeiro amigo, não tenha também esse veneno que aos poucos está matando toda a humanidade.
Faça jus de mim que sou tua amiga feita de pinho, nunca te deixarei sozinho,
Serei tua eterna amiga nas horas amargas e felizes que estará contigo antes e depois da tua lida.
Tem lugar pra todos nesse mundão de Deus, por isso não tira, não puxa o tapete de seu companheiro, não almeja o que não é teu!
Vamos juntos mostrar que nosso mundo enviolado pode ser um céu azul-estrelado, onde juntos formaremos uma só constelação,
Pois unidos venceremos a guerra da hipocrisia, da heresia, do preconceito e da libertinagem.
Não, não desmereço nenhuma arte, pois sou apenas uma entre um montão delas, mas temos que cuidar do que é nosso:
Pois se eu morrer, quem vai recuperar ela?
Ela, essa arte ainda comprimida, ainda esquecida no coração de cada um.
Moço, moça, não me deixem morrer! Lutem pra eu sobreviver!
Quando me tocares, lembra-te de tuas raízes, lembra o porquê que me tocas.
Lembra o porquê me dedilhas e, depois, apenas toca-me e toca-me...
E dança-me por todo o meu braço, sente o meu abraço, sente o pulsar do meu coração,
Que acalentará todos os dedos de tuas mãos...
Somos uma fusão, somos dois em um,
Moço, moça, não tem vergonha de mostrar o que tu és e de onde tu vens,
Lembra-te que um homem digno não teme às raízes que provém.
Aprende com teus mestres, abraça teus companheiros,
Tende-me em teus braços para lutar e não temas o título: EU SOU VIOLEIRO!

Fabíola Mirella
Cantora e compositora paulistana, amante da música de raiz e apaixonada por viola. Teve seu primeiro contato com o instrumento na Orquestra de São José dos Campos regida pelo violeiro Braz da Viola. Cursou a ULM durante três anos onde conheceu pessoas importantes em sua carreira musical. Hoje, é professora de viola caipira e integrante do Grupo Violeiros Matutos. Ela também é coordenadora da Orquestra Feminina-Viola de Saia, projeto seu que teve início em Outubro de 2007.
http://www.violeirosmatutos.com.br
Escrito por Luiz Viola às 13h01
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